domingo, 30 de junho de 2013

"Enquanto você se engana, na contramão da felicidade, 
eu e ela já estamos de mãos dadas, a gargalhar..."
Essa pérola faz parte do poema da Val Saab, publicado hoje no "Roubando Pérolas" do nosso blog. Ele é tão rico, que me trouxe três interpretações, todas tão encaixadas, como se a Val tivesse feito não um, mas três poemas. Uma interpretação é sobre o fim de um relacionamento falido. Outra interpretação é sobre uma pessoa idosa, já prestes a partir pra outras searas, e dotada de enorme sabedoria. A terceira interpretação é sobre o momento atual, sobre as manifestações e um "recado" pros políticos. Por mais que eu leia, todas as interpretações cabem e Val mantém o mistério... Com vocês!...
Ainda temos, como em todo domingo, Paulo Motta e suas crônicas maravilhosas e o lirismo de Eduardo, hoje com um poema sobre a lua cheia.

De Val Saab

Eles querem mudar o caminho

e mostras desvios na minha direção
mas, desculpa, seu moço,
eu sei muito bem para onde estou indo...

Para onde vou, 

meu olhar é importante e minhas mãos também.
O que visto e o que carrego na carteira,
são problemas meus.

Desculpa, seu moço,

porque você quer me levar para a direção errada.
Não vou cortar os pulsos e chorar nenhuma tristeza,
pois não há tristeza maior 
do que as mentiras que escuto e que finjo acreditar.

Na verdade, as mentiras são todas minhas 

e fui eu quem pus em outras bocas
para escutá-las e desprezá-las.

Não se preocupe, seu moço,

o senhor não é responsável
por nenhum dia de sofrimento meu, 
já que meu sofrimento
é meu próprio engano e eu bem sei.

Mas olha, siga lá seu caminho

e deixe o meu em paz, pois, enquanto você se engana 
na contramão da felicidade, 
eu e ela já estamos de mãos dadas, a gargalhar.

Acontece que a sua história e a minha história

se esbarraram em um momento crucial, 
quando olhei para o espelho e vi um sorriso e você,
totalmente equivocado,
olhou e chorou.

Aí a vida disse: ai, este moço fez tudo ao contrário

e, então, você teve que partir.

Perto do meu coração, só tem lugar para um coração bom, 

perto do meu ar, ar bom,
e perto do meu sorriso, um outro 
que inspire vontade de viver...

Adeus!...


De Eduardo Magrão Menezes
LUA CHEIA
Amada lua
De todos nós
Doce madrinha
Dos namorados

Grande rainha
Da linda noite
Que testemunha
Beijos roubados

És o presente
Que não tem preço
Que não se entrega
Mas todos dão!

E a namorada
Emocionada
Tua luz reflete
No lindo olhar

É lua cheia

Luz prateada
Farol de amores
Na madrugada


De Paulo Motta

Enroscado nos meu pelegos nesse frio maravilhosamente gelado, pensando asneiras, claro, vendo um pouco da corrida de baratas na tevê, com o Galvão Buenos Dias narrando, não vi o Clay Regazzoni nem o Jackie Stewart, da Tyrrel, na peleia. Acho que o Fittipaldi está em décimo sexto, com o Copersucar, motor Cosworth, booom! Dou uma zapeada nos canais e nada encontro que me prenda a atenção a não ser, arrá, meu amigo Pica-Pau, na Record! O Pica-Pau demente, não o politicamente correto, atormentando Seu Leôncio, um encanto! Isso é que é programa educativo, não aquelas novelinhas de final de tarde onde todo o mundo sacaneia todo mundo, dando belas lições pra criançada de como se transformar num grande bandido! E bandidos politicamente corretos: não fumam, não bebem, respeitam as minorias sociais e dão preferência aos idosos na fila do teatro. Não existem mais bandidos como antigamente, aquele bandido feio, barbudo, com um toco de charuto pendurado no canto da boca, dois dentes de ouro chamado Bud, que emboscava o mocinho no desfiladeiro. Os facínoras de hoje usam Armani, fumam Montecristo e frequentam restaurantes impensáveis para a chinelagem que nem nós. Nesses restaurantes, em frugais refeições, decidem o destino do país, da Copa, das Olímpiadas e de quem pagará a conta. Do restaurante, é claro! Ainda bem que foi proibida a musiquinha do Atirei o Pau No Gato - que é do Villa-Lobos, sabiam? - senão imagina no que se transformariam essas próximas gerações? Assassinos psicopatas pervertidos, certamente! Tenho escutado músicas filtradas pelo MEC, ao alcance da meninada, coisa sadia do tipo "te pego de quatro e arraso o bumbum, bundinha na minha e créu tchum, tchã, tchã"! A Estrela já está lançando bonecos e bonecas com opção sexual e assessórios, é pro fim do ano! Beijinhos, vou tomar suco Ades de maçã...

sexta-feira, 28 de junho de 2013


Tirem-me um prato de comida
Tirem-me um casaco
um cobertor
Tirem-me os aliviados ares de primavera
Tirem-me tudo que adorna essa passagem
mas não me tirem 
a capacidade de reconhecer o amor

É ela que nos conduz 
com suas mãos encantadas
em direção aos invisíveis panos de seda
que nos preservam pela eternidade
da fome e do frio

quinta-feira, 27 de junho de 2013

EXISTE MAIS VIDA NO SUL DO EQUADOR
Confesso que já estou um pouco cansada do feed de notícias, de minha página no Facebook. Reconheço a importância do movimento de protesto que se levantou no país. Reconheço sua necessidade e os benefícios que pode trazer, principalmente a longo prazo. Mas os slogans já começam a ficar repetitivos e fogem do foco principal, que é o de lutar pela moralização na política. Se ilude quem pensa que o mensalão é o único vilão. Ele só foi mais um - e desta vez altamente divulgado pela facilidade de informações - nos desvios de conduta gerados pelo poder. A despeito do que pensam os saudosistas, a corrupção foi enorme no regime militar, a ponto do próprio Castello Branco dizer "0 problema mais grave do Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar". Medalhas a torturadores, "mensalões" a empresários que auxiliassem na caça às bruxas, desvios de verbas na construção da Ponte Rio-Niterói e Transmazônica, obra nunca concluída (A corrupção correu solta durante a ditadura - Postado por Juremir Machado em 7 de junho de 2012 e Moralismo Capenga, por Heloisa Maria Murgel Starling, em 23 de março de 2009). Sem contar o autoritarismo extremo, que jamais nos deixaria vivos se falássemos o que falamos hoje.
E por aí vai... Quem não se lembra das atrocidades do Collor da Dinda?Ou dos Anões do Orçamento? Ou da farra do TRT de São Paulo? Ou do Banco Marka? Ou dos Vampiros da Saúde? Ou da fraude do Banestado, do Paraná? E poucos foram punidos. Ou se foram, já voltaram...
Isso é que me entristece. Essa corrupção inerente à política brasileira. Esse jeitinho brasileiro que tão ardentemente combatemos e tão facilmente esquecemos, quando andamos acima da velocidade, entre um pardal e outro, quando andamos de bicicleta na mão contrária, na ilusão de segurança nossa e dos outros. Quando levamos um suvenir, em viagem, sem licença, dizendo, já estamos pagando por isso. Quando não devolvemos um troco errado. Quando tentamos baratear um preço justo, etc, etc, etc
Por isso, essa guerra de "bandeiras", pelo Face, está me cansando. Porque o que precisa ser mudado é muito mais do que nomes.
Sigo então com meus poemas e peço que voltem os comentários sobre livros, filmes, teatro, música, artes plásticas, a cultura em geral como troca principal, pois esse sim é um gigantesco movimento capaz de mudar a filosofia de um povo.

Como se não bastasse o risco de sol
entrando pela janela do banheiro
a toalha é limpa
e o sabonete é de maracujá

É covardia com o desespero
É covardia


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Respira respira respira
respira e pensa

Formula então teus eloqüentes versos
um pouco menos dotados de paixão
como se a vida fosse elaborado quadro
onde a matemática das cores primárias
justificasse o verde irradiado das folhas

Posso confessar por que desconfio das noites?

Nelas ressuscitam punhais
antes amortalhados por peitos solares
e giram giram giram os gumes afiados por sombras
na cova escurecida de seus males

terça-feira, 25 de junho de 2013


Quando restar apenas um
irei ao seu solitário encontro
para que nossas células se multipliquem
em berços renovados

Mas quando restarem cem
talvez eu permaneça calada
a observar com a distância necessária
por que lutam os pares e os ímpares
se seus avessos se movimentam num mesmo círculo

A observar por que desistem os pares
na ilusão da completude
e por quem ambicionam os ímpares
na inquietude da desigualdade

Talvez eu permaneça calada
porque sou covarde para prevenir o mundo
que os pares e os ímpares
de mãos entrelaçadas 
completam sem transtorno a teia do infinito

segunda-feira, 24 de junho de 2013


Se alguém perguntar por mim
diz que eu também fui por aí
com essa curiosa aptidão para os detalhes
e a melodia das palavras
feito notas musicais
roubadas de um violão
que há tempo repousa debaixo do braço

domingo, 23 de junho de 2013



Que mais dizer do amor, quando ele chega através de palavras tão doces? Esse é um Eduardo ainda mais lírico do que sempre tem sido...
No contraponto, a análise ácida de Paulo Motta das manifestações pelo país.
Duas pérolas que roubo sem remorso...

De Eduardo Magrão Menezes

Quero a luz dos teus olhos
Tua sede de amar
Tua pele arrepiada
Tua boca pra beijar

Serás amor perfeito
E serei teu beija-flor
Sugarei todo teu néctar
Doce gosto de amor

Também serei jardineiro
Nas nuances da paixão
Regando com muitos beijos
Minha flor do coração

De Paulo Motta


Um monumental protesto em todo o Brasil. Avassalador, contagiante, apesar dos marginais que participam com intenções menos nobres. Uma manifestação como nunca se viu neste país. Jovens, veteranos, homens, mulheres de saco cheio dessa roubalheira e falta de respeito com o ser humano brasileiro. Audazes, ousados, indignados! E acéfalos. Cadê os líderes, os homens que deveriam conduzir essa massa furiosa? Esperava que a nossa presidente surgisse como um norte, como uma verdadeira condutora do rumo desse megaevento que entrará pra história do Brasil. Em rede nacional, comportou-se como se estivesse diante de uma greve dos metalúrgicos ou dos servidores federais. Disse obviedades, talvez para ganhar tempo, esperando que o movimento, com o tempo, se fragmente e esmoreça diante de seus olhos, o que seria de uma ingenuidade absurda. Mas como mudar o que está aí se continuarem os que estão lá? Não estamos em 61, quando Brizola - governador do RS - formou a Rede da Legalidade e o Tancredo assumiu, num regime parlamentarista, como Primeiro Ministro e o Jango, Presidente. Não há nenhuma liderança que una esses brasileiros em torno de alguma proposta. O único rosto que vejo em todo o lugar é o do Guy Fawkes, de bigode e cavanhaque, nas máscaras da garotada. Máscaras baseadas no personagem Codinome V, do filme V de Vingança, por sua vez inspirado no gibi homônimo que circulou no final da década de 80. Guy Fawkes foi enforcado em 1606 por participar da Conspiração da Pólvora, movimento que pretendia explodir o parlamento inglês. Mas Codinome V é ficção! Se fossem máscaras do Joaquim Barbosa seria compreensível; me parece que na ausência de gente de carne e osso, apela-se pra ficção que seja mais próxima da realidade. Buenas noches.

sábado, 22 de junho de 2013

Moro num armário de portas abertas
com as cores da paz a dançar em cabides

Moro num armário de portas abertas
porque às vezes preciso encostar em paredes
para escapar das geadas dos maus julgamentos

Moro num armário de portas abertas
onde me visitam as boas intenções
e todos os sentimentos mais puros

Moro num armário de portas abertas
de onde saio a viajar em busca de amigos
que ousam comigo um vôo infinito
no espaço mais amplo das mentes luminosas


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Um fósforo 
não queima as mãos 
por ser um fósforo
Ele queima apenas 
por estar aceso

quinta-feira, 20 de junho de 2013


Volto a te buscar na casa vazia
mas já não sei quem és
Os fantasmas espiam pela janela
e se confundem com tua forma

Mesmo assim
não sei quem és
nem sei de quem a voz que canta
porque os fantasmas não estão mortos
e repetem sempre o mesmo drama

Não sei se um dia
poderei pensar em ti sem solidão
porque a busca é um labirinto
e a verdade pode ser insuportável