O RASTILHO
Hoje são os nossos jovens que estão morrendo na rua! Os filhos de nossa geração estão morrendo pelo crack cada vez mais cedo e são eles que caminham pela vida, como uma legião de infelizes. Mas, como todas as crianças da minha época, cresci vendo os moradores de rua como os velhos e desajustados da cidade. O álcool, a loucura e o abandono eram a mola mestra daqueles seres meio sem idade e sem história, embora fizessem parte de nossas vidas como personagens um tanto assustadores e completamente fora de nossos padrões de comportamento.
Em Cachoeira, uma das mais famosas de minha época era a Maria dos Cachorros. Tinha muitos vira-latas que a acompanhavam como um séquito e percorriam a cidade, de alto a baixo, arrecadando esmolas, quase em silêncio. Eu tinha muito medo dela, apesar dos cachorros, mas lembro de determinada época em que andava com uma criança de colo, empoleirada em sua cintura como uma bagagem sem peso nenhum. Depois de um tempo o filho sumiu e ouvi conversas, de meus esconderijos secretos, que teria morrido, pela fome ou pelas dificuldades. Depois disso aumentou tanto a quantidade de cachorros, como uma forma inconsciente de compensação, que o poder público tratou, enfim, de cuidar da vida dela. Como, prefiro não pensar!
Talvez pela criança que a acompanhava, sempre associo essa história a ela... Um dos cemitérios de Cachoeira era perto da minha casa e, bem pequena ainda, comecei a ouvir sussurros dos adultos a respeito de gemidos vindos de um dos túmulos. O medo tomou conta, pois sobravam curiosos que sempre tinham um complemento tétrico para as histórias e viam mortos se levantando a cada gemido, noites de sombras que erguiam suas garras em busca de virgens diáfanas e frágeis aventureiros. Os detalhes romanescos se somavam a cada suspiro do tempo e a cidade, durante vários dias, ficou em polvorosa! Até que corajosos agentes, saídos não sei de que departamento, resolveram enfrentar os fantasmas e suas origens funestas. E eis que, ao se armarem contra a morte, encontraram a vida envolta em trapos. Maria dos Cachorros (ou outro ser abandonado como ela) havia eleito o túmulo mais acolhedor para dar à luz e foram as dores do parto e o choro de seu bebê que trouxeram ao imaginário a multidão de mortos-vivos.
Podem ter mudado os seres que se destroem perambulando pelas cidades, mas uma coisa, mesmo quase sessenta anos depois, é imutável. O engano disseminado e a mentira, seu alter-ego, quando tomam o caminho das verdades, erguem suas garras em busca da credulidade. Como um longo rastilho de pólvora, brilha e irradia, até que os pedaços da vida voam sem volta pelo ar...
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