quarta-feira, 10 de abril de 2013


Realmente, nunca havia dado muita bola pra minha extrema distração, até o dia em que fiquei trancada em casa.
Apesar da palavra esquecimento ter um alto cargo em meu vocabulário, sempre foi pouco comum o fato de eu esquecer minha bolsinha tiracolo em algum lugar, visto que nunca me lembrava de tira-la do ombro.
Mas o fato é que, contrariando minha mais forte característica, naquele sábado, enquanto trabalhava, lembrei-me de guardá-la na gaveta de minha mesa.
Esse rasgo de inteligência foi o causador de minha prisão, visto que minha colega de quarto viajou hoje de madrugada, trancando a porta por fora e minha chave está, neste momento, dentro da bolsinha que esqueci de trazer para casa.

Quando me vi trancada, a primeira coisa que fiz foi procurar uma saída, claro. Engraçado é que, alguns minutos antes, quando em obediência ao rei e senhor relógio, levantei-me, estava com uma certa revolta pelo domingo ser tão curto, ansiando, nesse tempo úmido, ficar o dia inteiro em casa. Agora, que me sabia trancada, com chuva ou sem chuva, procurava uma saída. Mas o problema é que as três janelas de minha diminuta casa são basculantes e eu, que não sou gorda, mas que também não posso ser chamada de esqueleto de saias, não consegui libertar nem a cabeça.
A segunda tentativa de fuga foi baseada na improvisação de uma chave. Dessa tentativa resultaram um garfo, uma faca e um compasso tortos, além de inúmeros pauzinhos e arames quebrados.
A terceira tentativa foi de arrombar a porta. Mas desisti depois de dois segundos, pois consegui, nesse espaço de tempo, entortar a dobradiça e, além disso, não teria força suficiente pra levar avante o objetivo.
A quarta tentativa foi de chamar alguém da vizinhança, explicando meu complicado problema e solicitando a generosidade de, como ser humano não-enclausurado, telefonar ao jornal onde trabalho, para que de lá viessem com a chave buscar-me. Depois de quase uma hora espiando pela janela, espichando os braços já em desespero e só não gritando porque ainda restava um pouco de dignidade, consegui enxergar alguém. Um pouco mais de tempo até que esse alguém me enxergasse e, finalmente, consegui desabafar meu problema.
Agora, já faz quase duas horas que ele saiu de carro prometendo avisar o Diário e ainda continuo trancada. Enquanto escrevo, começo a ter dúvidas se realmente esqueci a bolsa no jornal ou em algum outro lugar, que agora não me ocorre o nome...

Passo Fundo, 6 de janeiro de 1975 - publicado no Diário da Manhã do dia seguinte

Nenhum comentário:

Postar um comentário