quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A poesia é a transfusão 
do que se tem
com tudo aquilo
que no fundo se imagina

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Queria te amar melhor
queria muito

Talvez um pouco menos quieta
Um pouco de Renato Russo
a te dizer
que minha respiração
é música urbana

Não respiro quando penso em ti
Temo desassossegar o resto do teu sono
e velo como espírito de luz
em volta de teus passos

Queria ser mais febre
mais revolução 
mais tempestade

Um pouco menos dessa alma esvoaçante
que te deseja como se tocasse em flores
e que te embala
quase que em total segredo

domingo, 1 de dezembro de 2013



No Roubando de hoje, uma estréia. Joice Bermann e sua sensibilidade trazendo um pouco de luz ao nosso tempo. E o Motta nos ensinando que a risada, quem diria, também é uma arma. E que arma!

De Joice Bermann

No fio da teia,
habitam invisíveis
ternura e aconchego.


De Paulo Motta
ENFADONHA
Essa palavra me parece alguém cantando um fado maçante enrolado numa fronha, não parece? Que nem 'grandessíssimo'. Quando ouvires essa palavrona, saiba que ela não vem acompanhada de nenhum elogio: aquele grandessíssimo salafrário, aquela grandessíssima vadia, viram como tenho razão? Ninguém diz: aquele grandessíssimo cidadão de bem.
Mas se queres fazer alguém profundamente irritado, ria dele. Se queres fazer alguém descer de sua arrogância petulante primata, gargalhe dele, o efeito é devastador, garanto-lhes. Dependendo do grau de irritabilidade da futura vítima, melhor fazê-lo numa distância segura, para o caso dele querer cobrir-lhe de porrada, o que é muito frequente em tipos assim, que se acham os donos do mundo.
Alguma coisa aprendi na escola, uma delas foi a arte da azucrinação, com mestres no assunto - meus colegas franzinos - que não podiam enfrentar os grandões bonitões. No recreio, faziam um grupinho num canto e ficavam apontando para uma das vítimas e rindo a valer. Rapaiz, o cara se encanzinava e vinha pra cima, mas ai já era tarde, a maldição já estava lançada e o infeliz corria atrás dos azucrinantes mas não conseguia pegar ninguém.
Meu falecido compadre João Telmo era um mestre nisso. Pós graduado no Tibet, com monges azucrinolim, herdeiros dos shaolins.
Numa noite estávamos na frente do CTG Tropilha Crioula, em São Borja, esperando uma brecha para entrar sem pagar no baile, e encostou uma camionete bem na nossa frente e o motorista apontou um 38 pro João Telmo e falou: "Tu te lembra de mim, fiadumaputa?", e o Telmo: "Claro que me lembro, te caguei a pau, semana passada, e ainda te tomei essa bosta desse revólver!". Quase me borrei perna abaixo! Desgraçado! Meu amigo quer morrer e me levar junto, só podia! E o pior, depois da resposta do meu amigo todo mundo desatou a rir e o cara do 38 fez menção de descer e aí formou um bolo e, quando me dei conta estávamos dentro do CTG, bailando. Eu encagaçado, mas bailando ao som de Os Dinâmicos.
Então, a risada é uma arma mortífera, desde que bem manuseada, senão pode se voltar contra ti, é bom treinar antes. Existem boas academias de gargalhadas por aí, todas muito sérias, se é que pode. 
Vou fazer minha logística vespertina - uma vespa libertina - e volto logo pra ouvir o relatório da reunião de hoje, no lançamento da minha candidatura! Masbá!

sábado, 30 de novembro de 2013

Já levantei a taça de cicuta
Lembram vocês que me viram então?
Já levantei a taça de cicuta
e a provei até
E com ela equilibrada nas mãos
reservada para um momento de desesperada sede
cruzei o mapa mundi com os pés em carne-viva
atrás de uma conciliação
entre o ser e o estar

Não sei onde a perdi
Não sei onde a deixei encostada 
em alguma pedra do caminho

Sei que alguém pode encontrar a taça
e sei que vai bebê-la
E eu deveria estar aqui
para avisar que além dos venenos
existe outro tipo de consolo

Mas não posso
porque não sei quando descobri
que a dor é simples pulso
e o passo 
um passo apenas 
é o suficiente

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Tempo demasiado
descansando nas sombras...

Agora quero brincar
com esse anjo travesso
que mora na ruas
longe das noites internas

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Que minha palavra
amanheça tão branda
quanto o nascimento
desse avizinhado dia

domingo, 24 de novembro de 2013


E foi num dia de chuva que o Paulo Motta voltou a pedir emprestado o livro Camilo Mortágua... E foi ouvindo um fado que Val Saab escreveu um de seus mais belos poemas...
Roubando Pérolas, num dia de passeio interior!

De Val Saab

quando estive em Portugal, tive a oportunidade de escutar muito fado. Principalmente no último dia, com um foninho sem-vergonha daqueles ônibus que fazem tour pq o tempo curto me empurrou para eles.....então escutei isto: "o amor é um contratempo....." e me inspirei:

não temos tempo a perder
somos fugazes
a lua brilha na noite escura porque sempre
existe - também- um diamante 
na nossa escuridão.

não há tempo a perder
mas o tempo precisa ser 
cuidado.

que haja calma nesta
pressa da vida e que
a gente sempre encontre
tempo para se encontrar.

De Paulo Motta

CHUVA
Paixões amortecidas brotam, espreguiçando-se, nesse dia chuvoso e lento. O manto líquido cobre a cidade e bailam aquelas lembranças, que não querem ficar quietas em seu baú escondido, nos quartos empoeirados da nossa alma. Estou a um passo de me deprimir e mergulhar num pranto silencioso, acariciando as minhas tristezas guardadas, despertadas nessa tarde sonolenta. 
Quando ponho o pé dentro da sala, onde me esperam tristezas e cântaros de lágrimas, a filha do velhote chato do sétimo andar me puxa pelo braço! Não lembrava da Cátia Cilene, tão linda, no auge de seus vinte anos, me convida para entrar enquanto ela procurava o Camilo Mortágua que eu pedira emprestado, no saguão do Edifício Portal. 
Por que ela estava somente com aquele beibidól amarelinho não sei e nem quero saber, mas não seiondevouenfiarasminhasmãos, cruzes, vade retro, sou um rapaz sério. Já imaginou se meto a mão naquele quitute lourinho, com cabelo de massa cabelo-de-anjo, uma tentação, é isso! O demônio me tentando no Monte das Sacaninhas! E que demônia, ela. Meu cérebro disparou e perdi o controle sobre ele! Está tentando me fazer de idiota. Ou não? Acho que sim, mas talvez não, e a eternidade que a Cátia Cilene demorou para trazer o livro foram três minutos e ela voltou, rebolativa e provocante, tenra tentadora aterradora e ali, bem na minha frente, entregando o livro e eu nem lembro o que vim fazer aqui. 
Talvez eu seja um louco, mas vou beijar essa obra prima que saiu das mãos do Senhor, seria um descaso com o trabalho Dele nem ao menos tentar tocar com as minhas duas patinhas dianteiras; e ela continua me olhando, com a mão estendida e o Morte e Água do Camilo sorrindo. Consegui me desvencilhar e correr pro meu apartamento, com sofrimento, nunca mais terei outra oportunidade, sou um bobalhão, medroso. 
E chovia naquela segunda-feira modorrenta, sodomenta, gosmenta e a campainha toca. Era ela, singela donzela vestida com um jeans mais comportado, me trazer uma ficha de leitura que estava dentro do livro e caiu, poderia me ajudar no trabalho do Irmão Mainar Longhi e o Camilo Mortágua. 
Entendi tudo como uma segunda chance que a Cátia Cilene me dava, é isso! Entra, Cátia, Catinha, Catita, bonita, tenho café, Mountain Dew e bolachinhas Maria.
Nem chegamos às bolachinhas Maria, Cátia linda, delicada, amada ficou tão pouco tempo na minha vida, desceu do carrossel e foi embora com seu pai, do Banco do Brasil, pro Rio de Janeiro.
Bueno, vou almoçar depois volto para o convívio com meus amigos maravilhosos. Adoro vocês, tigrada!

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Moro na beira desse mar
de revoltas palavras

Ora como um manto
de infinita areia
Ora como as pedras 
de uma inviolável fortaleza interior

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O UNIVERSO
Quando eu tinha 14 anos, meu primeiro amor adolescente me tirou pra dançar. Era apaixonada desde os 12 e ele mal me olhava. Lindo como um apolo, foi o sonho efervescente de todas as garotas de minha época. Mas os hormônios trouxeram, junto com as faces profundas do amor, os muitos quilos a mais que minha infância havia economizado. E, enquanto engordava, afastava o amor como se tivesse um vírus contagioso. Adolescentes grudavam os olhos em belas estampas e, invariavelmente, ser feliz estava ligado apenas ao que brilhava.
O amor aos doze anos é exigente e logo comecei a correr atrás de sua atenção. Era irmão de uma amiga e logo passei a visitá-la com a assiduidade de um funcionário-padrão. Pobre coração sem noção! Eu achava que ele era meu cais, meu caminho seguro construído em mundos imaginários. Mandava recados e recados e não voltavam as letras construídas em resposta. Até que alguém me contou que ele havia declarado alto e bom tom, que "nunca teria nada com aquela bolacha!".
Foi um caos interior, muito pouco compreendido, mas a inocência não via tempo para as sombras, preferindo ocupar seus dias em brincadeiras remanescentes e passeios coquetes pela praça da cidade, onde os garotos ficavam parados em bando, esperando nosso desfile. 
Enquanto eu crescia, o corpo tomava conta de suas curvas e os olhos masculinos, antes tão arredios, agora já me visitavam com o vagar de um inquilino.
Mas o amor continuava acenando de longe, até o dia em que ele me tirou pra dançar. Foi uma música, só uma - My Way -, mas durou os dois anos de espera. Por aqueles 5 minutos vivi o universo dentro do peito. Por aqueles 5 minutos as fadas do bem voaram de mãos dadas com as notas da canção imortalizada por Frank Sinatra. Depois de muito tempo a música terminou e nos separamos, ficando para sempre, em meu coração, o calor do seu corpo.
Se ficamos juntos? Claro que não! Eu já havia vivido uma vida inteira de sensações naquela pista de dança e ter conquistado seu corpo melodiosamente colado ao meu mostrou-me a magia da auto-estima e o universo, com sua gama muito maior de possibilidades, abriu seus braços à minha trajetória.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

É dia de honrar o sol
em sustenido e bemol
rezando uma melodia
nas notas dessa folia
que teimam em ofertar
a pausa no meu penar

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A SOMBRA
Cada vez que avançam os ponteiros da balança, em seu delirante desafio, sinto saudades daquela menina magricela que habitou meu corpo nos primeiros anos. Comer era a obrigação mais enfadonha do dia e eu a cumpria com o descaso de uma relação já desgastada. Com o tempo fui adquirindo uma habilidade impressionante em remexer a comida no prato, amontoando porções aos montinhos, que davam a impressão de espaços vazios. Um ou outro pedaço de carne mastigado e estava feita a ludibriante cena. Por algum tempo essa solução livrou-me do tormento, mas logo a pressão recomeçou.
Um dia, no centro da mesa, como iguaria principal, estava um vidro de óleo de fígado de bacalhau. O pai, antes que as perguntas viessem em bombardeio, começou a apresentar as drásticas resoluções tomadas pelos adultos, na calada da noite anterior. A partir daquele dia ninguém mais precisava comer, se não quisesse. Liberdade total de escolha! Bastava que se optasse por uma colherada daquele vidro mágico, com seus nutrientes essenciais, e tínhamos a liberdade do prato vazio. Pareceu-me tão pequeno o preço a pagar que, na mesma hora, agarrei-me à esperança de salvação. A colherada veio ao encontro da boca escancarada e, assim que encharcou-me o paladar, voltou como um foguete por cima do mundo e das pessoas em volta, seu gosto horroroso temperando o almoço do dia. Quem já tomou óleo de fígado de bacalhau sabe o gosto insuportável que tem. Pois o sonho de substituir a comida terminou no instante em que o provei, num golpe de mestre do pai e da Dida. A partir de então, as refeições eram consumidas com uma aplicação exemplar, sempre observadas em silêncio pelo vidro fatídico.
Penso que foi esse dia que acordou a balança. Comecei a comer, e da abrigação passar ao prazer foi um passo. A adolescência descobriu os lanches, os salgadinhos, o álcool e, até que eu aprendesse a equilibrar tudo isso, a vida atravessou um longo curso. E os quilos a mais, como uma sombra nefasta, passaram os anos caminhando insistentes ao meu lado.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Rasgo outubro
no calendário 
de minha viagem

No amanhecer
de um novo mês
o dia cheira a talco