terça-feira, 3 de setembro de 2013

Tento te buscar
atrás dos teus silêncios
e me assusto
com a imensidão do que compreendo

O silêncio transborda no cálice
antes da porta fechada
A última tragada
O último gole de cerveja
A extrema-unção de uma vida extraviada

O silêncio é a enciclopédia
das verdades ocultas

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A JANELA
Quando fiz 10 anos, ganhei uma camisa Volta ao Mundo. Quem testemunhou os anos sessenta, com sua revolução comportamental, artística e política, sabe que a moda, como reflexo, também acompanhava essa explosão, que mudou de forma radical os costumes. A minissaia, a moda unissex, os tecidos sintéticos e, claro, a camisa Volta ao Mundo, de uma espécie de nylon, sonho de consumo de qualquer criança e jovem da época. Tinha gola e um bolsinho na frente, quase sempre de cor clarinha, uma graça. A minha era verde água. Naquele ano fomos para a praia e levei-a principalmente para os domingos, porque era "de sair". Velhos shorts e roupas menos delicadas, que agüentassem o tranco daqueles dois meses de aventuras, eram a vestimenta principal. Uma das brincadeiras mais emocionantes era subir as dunas, que naquele tempo eram enormes e se chamavam cômoros, e, de lá, rolar até embaixo, pra depois subir de novo e rolar e subir e rolar, até que o sol se pusesse no horizonte. Numa das subidas, achei a Tixinha. Era uma lagartixa bem branquinha, camuflada para a areia, que terminou com minha brincadeira daquele dia, pois instantaneamente a adotei e levei-a para seu novo lar. Dormia numa caixinha, na cozinha, e adaptou-se logo ao cardápio de insetos que eu lhe dava. De dia, passeava comigo por Arroio Teixeira, no bolsinho da Volta ao Mundo, com as patinhas de cima apoiadas na aba do bolso, como se ele fosse uma janela. Olhava de um lado pra outro e fazíamos sucesso em nossas caminhadas. Era a alemoazinha, filha do seu Lauro, com sua insólita lagartixa de estimação. Quando as férias acabaram, precisava de um lugar de transporte para a Tixinha. Encontrei uma caixa de manteiga (que na época vinha em embalagem de papelão) e junto à família e tralhas restantes, começamos a longa viagem. No meio do percurso, resolvi dar uma espiada na filha. Horror! Pânico total! A Tixinha tinha fugido. Ajoelhei-me no chão do ônibus a procurar, nessas alturas já aos berros, tirando o sossego dos companheiros de viagem. Todo mundo resolveu ajudar - pra se ver livre de minha histeria, claro - e era um tumulto tão grande, que o motorista resolveu dar uma parada no acostamento, até resolver questão tão delicada. Não lembro quem achou, mas de repente foi um griteiro, achei, achei, e a Tixinha voltou pra caixa, podendo a viagem prosseguir em paz. Em Cachoeira, no mesmo esquema entre caixote e passeio, viveu comigo vários meses, até que um dia sumiu, não sei se por obra dos gatos ou das galinhas da casa. Se foi, e me partiu o coração, como a cada bichinho que se ia, mas fez da camisa Volta ao Mundo muito mais que um simples adereço de moda. Transformou-a, a cada vez que eu a vestia, numa janela para o mundo.

Caminhos do meu cantar
não acompanhas as curvas
as curvas secretas
do meu pensar

domingo, 1 de setembro de 2013


Rir e sonhar! O Motta e o Eduardo nos levam por caminhos diversos, mas iluminam nossos domingos com um encontro feliz. Que venham as palavras!

De Paulo Motta

Bom dia só se for pra ti! Parece mentira, mas conheço gente assim! Gente que abre os olhinhos quando desperta e diz: "Putaquiopariu, tô vivo! Que droga, mais um dia pela frente!". Fazer sexo nem pensar, suja todo o lençol e depois tem que tomar banho, é um saco, melhor tentar dormir. Essa espécie quase humana, catalogada pelos insuportólogos - especialistas em seres insuportáveis - como Incomodatus Tirandolex Patientia Mea, costuma estar atrás de guichês ou nas recepções de repartições públicas e, apesar de seu difícil acasalamento, tem procriado e encontramos muitos deles em call-centers e na área da saúde, também. São muito dependentes do cafezinho, que é seu principal complemento alimentar, melhor se servido pela Ideli Salvatti. Ao final do ano migram para o litoral, onde deverá se dar um penoso processo de conjunção carnal - a procriação - se a manguaça não for maior. Se isso acontecer, azar é o teu, pois ele vai passar bêbado as férias inteiras e te contando a mesma piada! O Poti Silveira Campos postou, há pouco, uma notícia de ZH, em que um cara foi à polícia reclamar que comprou cocaína e o traficante entregou-lhe farinha. Parece gozação, não parece? Mas não é gozação, é verdade. Sempre digo que não sou um modelo de decência ou exemplo pra qualquer coisa mas, como diria minha bisavó Etelvina - aquela que morreu da próstata - "A que ponto chegamos!". Hoje, se eu entrar num supermercado encher os bolsos e for flagrado na saída, pelos seguranças, é bem provável que os seguranças sejam indiciados por truculência e aquela ladainha toda que vocês já sabem. Furto não é crime. E droga parece que também não está sendo mais. Em seguida teremos traficantes protestando diante do Palácio Guanabara ou dando palestras sobre uma nova visão mercadológica, não duvidem. E o ministro do Ministério da Inducação e Cultura, o MINC, Carlos Minc, defende a maconha, a cocaína, a cocada preta, a cueca samba-canção cavadona e vai pra rua defender seu ponto de vista. Legal, sem hipocrisias, sou do tempo em que a gente tinha vergonha de comprar Colomy nos botecos pra fechar os boa-noites. Imagina três guris entram no bar e pedem um Colomy - pra quem não sabe é aquele papel pra fazer cigarros - vão fazer o que, hein? Até que alguém achou um Evangelho Novo Testamento da avó de alguém, com as folhinhas finíssimas, foi uma alegria pra garotada! A velhinha morreu sem dar falta do livro sagrado. Mas esses crimes estão tão banalizados que o que deveria ser piada, agora é real! Aliás, será que ainda existe o Colomy? Se existe, deve ter uns cento e poucos anos. Já estamos em véspera de semana farroupilha, acho que foi o Fernando Albrecht que falou, não tenho certeza, de que agora será Chama Afro-Descendente e não mais Chama Crioula! Bom almoço para todos vocês!

De Eduardo Magrão Menezes

PEPITA
Poeta apaixonado
É meu estado normal
Pois vivo garimpando amor,
Nas coisas que Deus criou!

Admirando engenheiras formigas

Bailarinas borboletas,
Amando amores-perfeitos,
Apaixonado por violetas!

Se solto a imaginação...

Sou barco ao léu
Pássaro voando,
Nuvem no céu.

Sou garimpeiro do amor

Na batéia da paixão,
Buscando a linda pepita,
Minha jóia e cara-metade,
Meu amor...
Meu coração!

sábado, 31 de agosto de 2013

Tenta descansar se conseguires
Tenta erguer as pernas em almofadas macias
enquanto tudo se desmorona ao redor

Não dá!

Muitas vezes a poesia
não é o instrumento
É chamado mais que um coração
para a reconstrução
São precisos mãos e pés e pernas e sangue
e uma energia que não sei de onde
além daquela que te fez respirar
e pensar
e sentir
até agora

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O medo das sombras
faz de nossos próprios contornos
um monstro desconhecido

Vou te dizer que é de chuva
que ele está molhado
que foi o sono que deixou
meu olho inchado

Vou te dizer que é de família
a palidez da pele
e que os quilos a menos
são tratos à Gisele

Vou te dizer que as rugas
são todas de expressão
e que os brancos que tomaram conta
são como sempre a mais livre opção 

Vou te dizer que planto
e me abasteço ao sol
e que me encanto
como nunca fiz

Vou te dizer que em paz eu canto
e sonegar todas as duras penas
para que uma noite apenas
seja de alívio o manto
e possas dormir feliz

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Não exijas 
de ti mesmo
a sensibilidade para captar presenças inauditas

Antes talvez
a capacidade para captar ausências
porque delas se absorve
o que realmente permanece

quarta-feira, 28 de agosto de 2013


O MUNDO É UM MOINHO
Deixar nossa casa grande e confortável em Cachoeira, para uma aventura distante, num chalezinho mais simples e sem grandes confortos, pode, hoje, parecer inconcebível. Mas era tão falada, tão decantada, através dos meses de inverno, que quase a vivíamos desde então. Em Cachoeira, colégio, pai e Dida trabalhando, manos conspirando sua juventude em quartos fechados, transformavam o ano num tedioso período de preparação. E então partíamos para a praia, onde os quartos eram mais compartilhados, as refeições feitas em conjunto e a liberdade de ir e vir, numa época de poucos perigos, era muito maior. Um dos meus maiores encantos era a adoção das diversas espécies que povoam nossas praias, lagartixas, sapos e seus girinos, peixes. Num dia de garimpo pelo arroio, que dá nome à praia e passava em frente à nossa casa, encontrei um sapo, o maior que já vi e compadeci-me dele pois - pasmem - tinha lábio leporino, segundo explicações do pai, pois pra mim ele tinha era um enorme rasgo na boca. Levei-o pra casa, andava com ele no colo e coloquei-lhe o nome de Quacolino (minha criatividade pra nomes era inigualável: Tixinha para a lagartixa e Rabudo pra o girino, além do Quacolino, claro). E comecei um sangrento período de caça a insetos - moscas, formigas, mosquitos, para prover o sustento de meu novo filho. Mas o Quacolino, mesmo tendo se acostumado comigo e a casa, emagrecia a olhos vistos. De enorme sapo que chegou, sem seu paraíso natural e sem sua liberdade, murchou, diminuiu de tamanho até e já nem falava mais "Quac", com seu lábio leporino. O pai, vendo minha agonia e a agonia do bichinho, principalmente, sentou-me em seu colo e deu-me a primeira lição de desapego. A primeira lição de que amar é deixar livre e que nada, nada nos compensa quando o outro, aprisionado, não é feliz. Muito triste, com o coração na mão, levei o Quacolino de volta ao arroio. Deixei-o lá, certa de que estava fazendo o melhor por ele, porque o pai, ao colocar a situação, sonegou-me a informação de que ele poderia não sobreviver com aquela boca e debilitado como estava, na guerra do mais forte. Deixei-o lá, já contente porque o tinha salvo, sem saber que o mundo dos sapos também é um moinho.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Se pelas ruas da cidade
eu também parir meus feitos
posso tumultuar o trânsito
por algumas horas

Uma vida que não foi emprestada
de ninguém
de nenhum modismo
ou lei
ou preocupação alheia
mas com tanto sangue
que entope os ralos da cidade
e com tanta luta 
que movimenta carros e rostos 
para além desse caos interior

Posso parir meus feitos
duas três vezes
e não vão faltar esquinas e desvios
em que tentem estancar a voz que nasce
Mas a poesia de causas e efeitos
que se avoluma sobre a cidade
nasce poderosa
como uma tempestade
E repentinamente
se estanca e vibra
como um luminoso dia de verão


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A BANDEIRA
Dos anais de minha infância, as mais ricas memórias vêm dos dois meses em Arroio Teixeira, todo verão, onde tínhamos casa. Não acompanhei a compra e transformação, de meras quatro paredes, numa casa que abrigasse a família, que crescia entusiasticamente. Divisão de quartos, construção de camas, prateleiras com cortinas, mesas, bancos, tudo feito em casa, com a sabedoria gerada pela realização de um sonho. Contam-me que, como nasci em outubro e cheguei à casa aos três meses, foi-me feito um berço de um caixote de madeira, forrado de tecido, com babados. Buscavam água do mar em um balde e a deixavam esquentar ao sol, para meu banho diário. O que me lembro era a viagem interminável, com baldeação em Porto Alegre, de Cachoeira até a praia, pai, mãe, Dida, meus três irmãos e eu, a menorzinha, carregando claro que a menor sacola, mas contribuindo com o frete de toda a tralha que precisaríamos pelos dois meses que viriam. Naquele tempo não havia grande comércio em Arroio Teixeira. Comíamos de vianda, de um hotel próximo, e havia um armazém nas redondezas de nossa casa. Frutas vinham vender em casa, de cento. Quando chegávamos, era preciso suportar três dias sem luz, até que a companhia de energia viesse ligar os fios. A maior invenção da época, depois da água encanada, foi uma geringonça, pai do disjuntor, que ligava e desligava a luz, no início e no fim do veraneio. A água era outro parto. Já fui uma sortuda de pegar banheiro construído, mas a água era de poço e tínhamos de encher a caixa através de bombeadas vigorosas. O pai, homem sábio, fez um cálculo perfeito de quantas precisaria para termos a água do dia. Dividiu por faixas de idade - eu tinha de dar trinta! - e assim foi funcionando, até que cresci um pouco e meus irmãos deram em grito pela equiparação de funções, já que eu comia tanto ou mais que os outros. Essa foi a primeira manifestação política de que tenho notícia! Mas o que eu mais gostava, a despeito dos três dias sem luz, era a pintura da casa, na chegada, com cal e trincha, que naquele tempo se chamava brocha, sem termos vergonha de comprar no comércio. O trabalho era dividido segundo a capacitação de cada um: eu pintava o rodapé, meus irmãos por volta das janelas e os adultos se ocupavam, é claro, do resto das paredes. Lembro-me de um dia, em que estava ocupada em meu setor, e fui atingida por um prego em pé, provavelmente deixado cair pelo pai, que era o mais alto e o mais distraído. O prego fixou-se em minha cabeça, como uma bandeira, e marcou-me para sempre, se não pela gravidade do furo, mas pelo amor às coisas partilhadas, pela criatividade em inventar, de um nada, aquilo de que se precisa e pela emoção que o cheiro do mar, até hoje, me proporciona.

domingo, 25 de agosto de 2013


Um dia, num poema, escrevi "ninguém avisou que havia uma curva no meio dos meus planos...". A desconstrução, quando sabemos que a vida dobrou esquinas, é absolutamente necessária, porque muda a posição do vento, a direção do sol, o movimento das ruas. E é essa desconstrução que abre espaço para um ser novo, adaptado à nova situação, e que pode ser ainda melhor que o ser de antes. Sobre isso nos fala Paulo Motta e sobre isso nos fala Gilnei Lima. Dois textos para reflexão. No contraponto, Val e o amor, Val e o lirismo de sua palavra. Que nossas pérolas possam iluminar esse domingo chuvoso.

De Val Saab
eu te procuro em todos os lugares
em todas as ruas e avenidas,
mas você não está.

eu te procuro em todas as praças,
bancos e sacadas,
mas você não está.

eu te procuro pelo céu,
pelo sol, pelas matas,
mas você não está.

eu te procuro pelos meus olhos,
na minha boca, no meu coração,
então, eu te encontro.
é onde você está!


De Gilnei Lima
A TRANSPARÊNCIA DA JANELA
DE VIDROS OPACOS.
Meu momento pessoal tem sido como as cotações das bolsas de valores e suas oscilações. São coisas que me incomodam, mas eu enfrento bem. Eu vim ao mundo com uma peça faltando. Não implantaram em mim o chip da inveja. Nem sei como é sentir isso, sinceramente. Ciúmes, claro, já senti sim. Mas é bem diferente. Eu tenho por algumas pessoas uma real e verdadeira admiração. Comigo, ao contrário, pouca gente me conhece, até porque estive longe do cenário das comunicações e do jornalismo por um tempo. Assim, quando resolvi assumir minhas atividades voltadas a minha verdadeira vocação e paixão, venho sentindo algumas escancaradas e outras veladas restrições ao meu trabalho, talvez até minha capacidade ou competência. Tendo ficar incólume a isso, mas nem sempre é fácil. Eu não sobrevivo dessa atividade, mas não vivo só de aplausos, preciso de trabalho real e sério, principalmente respeito, no mínimo na mesma medida que dou a todos os bons profissionais e outros nem tanto, mas meu respeito é linear. Cada um com seu nível de erudição, intelecto e conteúdo. Vou falar novamente em Paulo Motta. Eu tenho amizade e carinho verdadeiros por este grande ser humano. Eu não sei se a quantidade de coisas boas e ruins que ele aprontou na vida estão em equilíbrio, ou se a balança pendular cede mais à um lado do que a outro. Caberá em outro tempo e em outra instancia tal avaliação. Só sei que tem me valido de exemplar modelo de vida e de postura, pois em todas as circunstancias que esse grande homem tem vivido, nunca há momento que lhe permita emitir uma queixa, quando muito um grunhido de dor no quadril, uma lágrima por conta da síndrome de Harada, que lhe exige permanente uso de um colírio à base de corticoides, o que lhe deixou com as feições do Fofão e cabelo de plantação de algodão. Ser Paulo Motta não deve ser nada fácil. Uma pessoa com alto grau de intelecto, privado de mobilidade até que lhe seja implantada a prótese de silicone mamária, digo, de aço carbono na cabeça do fêmur, encaixada na bacia de louça sanitária, para que possa voltar a ter autonomia, como gente normal. Coisa que será impossível: Ser o que nunca foi. Mas também é preciso entender e louvar o fato de que um homem que encontra espaço para fazer com que todos se alegrem com um repertório de esbugalhos fraseológicos, diametralmente encaixados na inexatidão do contexto de coisa alguma, mas que sempre fará todo o sentido, considerando toda a solidão oculta, a dor silenciosa, que apenas é suavizada pelo alimento da maior de todas as energias: O sorriso de quem o lê anonimamente e a ESPERANÇA de que tudo sempre dá certo no final das contas.


De Paulo Motta

Conversava, hoje, com a Maria Verônica Marchiori Ahrends, um pouco sobre como é trabalhar a cabeça na minha situação. Lembrei de algo que escrevi sobre o aprendizado que está sendo pra mim essa série de restrições físicas que, temporariamente, atravesso. Estou aprendendo a desconstruir e reconstruir. Desconstruir não é destruir o que quer que seja. É mais ou menos como desmontar, delicadamente, muitas coisas e remontá-las de acordo com esse novo momento. Se não fizer isso, não conseguirei ir adiante, seja como eu estiver, fisicamente. Minha saúde física dependerá, diretamente, de minha saúde mental. E essa desconstrução, digamos assim, envolve limites e convicção de que eu não poderei mais ser o que fui; é simples, mas eu preciso me reconquistar: continuar sendo meu amigo como sempre fui sem me importar se estou mais ou menos gordo, mais ou menos careca, mais ou menos ágil, com ou sem bolsa de colostomia. Isso não é resignação, não senhor! É aceitação a partir do que é real e ponto. É uma reconstrução, um recomeço. Quando essa chapeação terminar, vamos ver o que ficou melhor e, depois, damos uma boa olhada no que não deu pra consertar. Me parece razoável, hein? Aí vou fazer pilates! Quando ouvi essa palavra achei que fosse o Pontes Pilates, aquele carinha que lavou as mãos na água benta da Capela Cistina e mandou crucificar Barrabás! Deixa pra lá o Pôncio Pilatos, ó herege! A plantonista Chun-Li carinha de desenho mangá me traz alguns comprimidos e um, esquisitinho, parecia uma pequenina ogiva nuclear, achei que fosse um supositório, mas não era, ufa! Era via oral e não anal, para entrar nos anais da minha trepidante tramitante vida médico-hospitalar. Acho que estão fazendo testes comigo, tive certeza quando passei na frente do espelho, no escuro, e estava com um alarmante brilho verde-kryptonita! A Chun-Li se retirou sorrindo como se levada, suavemente, pela brisa da noite. Isso aqui está ficando meio sobrenatural, só falta o Edison Lobão com seus caninos pontiagudos e a capa negra a cobrir-lhe o corpo esquálido e a Ideli Salvatti oferecendo cafezinho! Tiau pra vocês, gurizada medonha!