quinta-feira, 26 de setembro de 2013
A CELEBRIDADE
Meu primeiro emprego foi aos 7 anos. Era secretária do programa de auditório "Nossos filhos se divertem", transmitido pela Rádio Cachoeira em cada domingo de manhã, criação de José Schneider Filho, o seu Schneider, que foi diretor da Rádio por mais de 30 anos e revolucionou o conceito de participação do público no interior, com programas de calouros, shows e rádio-teatro ao vivo. A Rádio Cachoeira foi chamada de "A Escola do Rádio" pelos valores que descobriu e até hoje enriquecem o jornalismo nacional.
O programa "Nossos filhos se divertem" lotava um auditório de entusiasmadas crianças, principalmente pelo quadro "Histórias que a Vovó Conta", com a vovó Olga Bandeira. Eu ajudava o seu Schneider na apresentação dos convidados ou alcançando os papéis com os nomes dos presentes no auditório, para sorteio de brindes, missão extremamente complicada pois invariavelmente eu misturava tudo ou perdia algum papel importante e tinha de ficar ajoelhada procurando. Adorava a função e me sentia o máximo. Durante a semana seguia o colégio e as aventuras, como qualquer criança, mas domingo a vida era um espetáculo à parte. Por isso, ficar sem o programa era o pior castigo que podia haver. Dependendo do grau da peraltice era um ou mais domingos de proibição.
Numa brincadeira absurdamente perigosa com meu primo David, quatro anos mais moço que eu, jogávamos uma pedra e o outro tinha de pegar e a jogar de volta. Como ele era muito pequeno, raramente conseguia aparar e numa dessas vezes a pedra o atingiu diretamente, causando-lhe um corte que levou pontos e até hoje, cinqüenta anos depois, ainda está tatuado em sua testa. Claro que fiquei muitos domingos sem poder ir ao programa e quando voltei o seu Schneider perguntou, ao vivo e em frente a todo o auditório, por onde eu andava. Respondi alto e bom som: "estava de castigo!". Tive de contar o motivo e ele aproveitou para distribuir conselhos às crianças que assistiam o programa. E a cidade inteira ligava o rádio domingo de manhã! Transformei-me, repentinamente, numa celebridade às avessas, como exemplo de crime e castigo adaptados à nossa idade e a cada vez que era impedida de ir ao programa, precisava contar ao vivo o motivo da sentença.
Não sei bem quando tudo terminou, se perdi o interesse ou cansou-me essa exposição que eu mesma havia criado. Mas quando penso naqueles tempos, vem-me sempre à memória a magricela loirinha no palco dizendo que esteve de castigo, sem ter noção de que alguém, em algum lugar da cidade, pode ter desviado a rota de caminhos obscuros, em função das palavras do seu Schneider, que derivaram do mais inocente ato de espontaneidade.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
terça-feira, 24 de setembro de 2013
O ESTRANGEIRO
Passar alguns dias em Floripa lembrou-me os dois anos em que morei lá, no início da década de 90. Mudei-me com mala, cuia e bicharada, para montar um camping na praia de Armação do Pântano do Sul, na ilusão de que a sensação de férias permanente ia vencer todas as dificuldades e a constante ebulição de minhas emoções. Mas em 91 ainda venciam as promessas e meu primeiro aniversário lá, em outubro, foi inesquecível. A aventura começou cedo, com uma caminhada até a Praia da Solidão, que naquela época era ligada ao Pântano do Sul por uma trilha. O dia estava lindo e o chão forrado de folhas formava um tecido xadrez. Acima o arvoredo quase intocado e à frente o mar, sereno mar a retocar meus desejos com o melhor presságio. A nota triste era a quantidade de pingüins mortos à beira da praia. Mas de repente, um quase imperceptível movimento acima de meu acampamento e lá estava um pingüim com um leve tremor, como se a vida demorasse em se despedir. Tinha um enorme machucado nas costas, mas respirava, e o meu passeio terminou ali. Voltei pra casa com a cesta de piquenique intocada, mas decidida a trancar as forças restantes em seu corpo até que pudesse ser ajudado. Mas não havia ninguém para ajudar. Liguei para o Ibama, para as secretarias do meio ambiente da Prefeitura e do Estado, para o correspondente catarinense ao Ceclimar, e nada. Ninguém estava disponível. O veterinário perto levou medo, então resolvi usar toda a minha experiência com meus bichos. Dei anti-inflamatório, antibiótico, limpava o ferimento com soro e colocava rifocina. Para alimentá-lo, o sistema GA (goela abaixo): soro caseiro e peixe passado no liqüidificador, bem aguado, várias vezes por dia. Uma semana depois ele acordou e levou outra para ficar em pé. Nessas alturas eu já havia feito amizade com os pescadores e ia até a praia esperá-los pelas seis horas da manhã, de onde vinha lotada de peixinhos para o cardápio do pingüim.
Mas Floripa começou a arder de calor e precisei tomar medidas extremas. Desocupei o freezer e coloquei-o a morar lá. Ligava e desligava e deixava a porta aberta para que ele pudesse sair quando quisesse. Quando não estava dormindo - no freezer - ele seguia meus passos pelo terreno como um pintinho em busca da mãe. Era um espetáculo à parte vê-lo sair de sua casa e ficar de bico aberto esperando os peixinhos que, rapidamente, desapareciam de sua boca. Ficou alguns meses comigo, até crescer um pouco e fortalecer-se para enfrentar as correntes marítimas. E chegou o triste dia em que meus amigos pescadores puderam levá-lo até alto mar, num futuro incerto, mas seu de direito.
O freezer voltou ao seu papel de gelar bebidas, mas já não era a mesma máquina. Eram paredes protetoras que albergaram uma existência quase encerrada e não a deixaram ir. Assim somos nós, quando nos perdemos como estrangeiros no meio da vida. Um simples aceno basta para que se vislumbre, mais uma vez, a luz encantada do caminho de casa.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
"Despejando água na cuia, lembramos nossas cascatas, que são véu de noiva das matas"... Esse é o Eduardo e sua parceria com a palavra, numa homenagem ao 20 de setembro. E sobre a palavra nos falam Gilnei Lima e Paulo Motta. A palavra e seu poder. Em nós que a tocamos e a quem tocamos com o que foi dito...
De Eduardo Magrão Menezes
BANDEIRA GAÚCHA NA MÃO
O orgulho de ser gaúcho
Vivendo Brasil afora
Não é desfilar bombacha
Andar de bota e espora
Seja qual for o estado
Desta grande nação
O gaúcho é reconhecido
Pela cuia em sua mão
É símbolo de amizade
A roda de chimarrão
Contando causos gaudérios
E a cuia de mão em mão
Na roda lembrando o pago
Saudando o amado torrão
Erguemos a cuia ao céu
Homenagem ao nosso rincão
Da farroupilha nação
É a cuia segunda bandeira
Onde a erva representa
Verdes campos da fronteira
E se o amargo é topetudo
Formando um monte bacana
Com certeza é homenagem
À linda região serrana
Bomba de prata e ouro
Cravejada de rubi
Fala das nossas riquezas
E do sangue guarani
Despejando água na cuia
Lembramos nossas cascatas
Que são destaques no turismo
Ou véu de noiva das matas
Fora do nosso Brasil
Em estrangeira nação
Se identifica um gaúcho
Pela cuia do chimarrão
Ela representa orgulho
De nascer neste torrão
O pedaço mais amado
Do Brasil, nossa união
Então te aprochega vivente
Vem provar um chimarrão
É o doce amargo que sorvo
Cultuando a tradição
20 de setembro de 2013
De Gilnei Lima
De Paulo Motta
Sabe quando a tua cabeça fervilha como se algo quisesse saltar pra fora dela, só que não encontra o caminho certo num labirinto sem esquinas, todo redondo feito um espiral infinito, até que esse algo, essa coisa que percorre curvas em altíssima velocidade, encontra uma fenda extemporânea e nasce, escoando pelos dedos e tomando conta dos teclados! É uma sensação quase celestial, orgásmica, delirante! Descubro isso a cada dia que passa e me torno dependente de escrever.
Nem sabia que poderia escrever coisa com algum sentido pros outros. Escrevia pra mim, como se fosse uma pia transbordante que tu abre o ralo e a água escoa. E, pra quem não me conhece, sou exatamente esse celeiro de bobagens e anarquia verbal. Me considero um bobo alegre e não vejo isso como uma coisa má, perniciosa, apenas um sujeito que gosta de rir com os amigos, sejam eles virtuais ou não!
Aliás, perniciosas seriam pernas femininas deliciosas e perigosas, pernas que locomovem quadris curvilíneos em suave bambolear, em perfeito compasso com os seios cinzelados por Michelângelo Buonarroti. Ombros cobertos por revolta cachoeira negra, que acompanha a suavidade dos movimentos do pescoço em minha direção. Os olhos, de uma noite profunda, sob sobrancelhas espessas de ancestrais mouros, me levam a sonhos impossíveis e irreais!
Acordo com a plantonista: "Tá na hora do remedinho do Paulinhooo!", eu quase respondo: "Vai tomar no cuuu-uuu!". Mas não posso, é uma questão de postura diplomática!
Boa noite a todos, sonhem com um final de semana maravilhoso, nos vemos na missa das 07:30h, tá bom?
De Eduardo Magrão Menezes
BANDEIRA GAÚCHA NA MÃO
O orgulho de ser gaúcho
Vivendo Brasil afora
Não é desfilar bombacha
Andar de bota e espora
Seja qual for o estado
Desta grande nação
O gaúcho é reconhecido
Pela cuia em sua mão
É símbolo de amizade
A roda de chimarrão
Contando causos gaudérios
E a cuia de mão em mão
Na roda lembrando o pago
Saudando o amado torrão
Erguemos a cuia ao céu
Homenagem ao nosso rincão
Da farroupilha nação
É a cuia segunda bandeira
Onde a erva representa
Verdes campos da fronteira
E se o amargo é topetudo
Formando um monte bacana
Com certeza é homenagem
À linda região serrana
Bomba de prata e ouro
Cravejada de rubi
Fala das nossas riquezas
E do sangue guarani
Despejando água na cuia
Lembramos nossas cascatas
Que são destaques no turismo
Ou véu de noiva das matas
Fora do nosso Brasil
Em estrangeira nação
Se identifica um gaúcho
Pela cuia do chimarrão
Ela representa orgulho
De nascer neste torrão
O pedaço mais amado
Do Brasil, nossa união
Então te aprochega vivente
Vem provar um chimarrão
É o doce amargo que sorvo
Cultuando a tradição
20 de setembro de 2013
De Gilnei Lima
Sergius Gonzaga PUBLICOU UM TEXTO MARAVILHOSO QUE FALA SOBRE O AMOR À LITERATURA. Minha modesta reflexão para o querido amigo Sergius.
.............
Hoje se me perguntam por que amo a literatura, posso responder: Ela é que me ama e eu correspondo. É uma caso antigo. Irremediável. Começou quando aprendi as primeiras letras desenhadas, logo depois que decodificava nas primeiras balbucias de leituras a espécie de encantamento.
Lia muito mal minhas primeiras palavras escritas. A literatura me respeita e me afaga. Me elogia, mesmo que meus escritos sejam feios, sem nexo ou sem respeito às regras gramaticais. Me incentiva dizendo: Não ligue se alguém criticar; os críticos, em sua maioria, são invejosos e tomados de um ressentimento encoberto. Escreva, escreva e escreva.
O meu segredo é ser literal, literalmente. Aceito todas as palavras em ordem ou desordem. Não te recolho o papel, quando escreves às avessas do regramento imposto pela academia. Mas talvez, mesmo que se tenha todo o respeito pelo esforço dos acadêmicos, lembraremos a eles que a literatura é livre, solta e sem forma definida, tal como o ar.
Todo o literato, aquele que escreve, respira. Então o ar é mais imprescindível para a literatura do que regras gramaticais e ortográficas.
Tudo que desejo desse meu amor por ti e, que sei ser correspondida, é que nunca me abandones, mesmo que seja escrever uma linha, poucas palavras que contenham o sentido mais puro dessa paixão. Escrevo por que preciso, e leio por ser Narciso.
De Paulo Motta
Sabe quando a tua cabeça fervilha como se algo quisesse saltar pra fora dela, só que não encontra o caminho certo num labirinto sem esquinas, todo redondo feito um espiral infinito, até que esse algo, essa coisa que percorre curvas em altíssima velocidade, encontra uma fenda extemporânea e nasce, escoando pelos dedos e tomando conta dos teclados! É uma sensação quase celestial, orgásmica, delirante! Descubro isso a cada dia que passa e me torno dependente de escrever.
Nem sabia que poderia escrever coisa com algum sentido pros outros. Escrevia pra mim, como se fosse uma pia transbordante que tu abre o ralo e a água escoa. E, pra quem não me conhece, sou exatamente esse celeiro de bobagens e anarquia verbal. Me considero um bobo alegre e não vejo isso como uma coisa má, perniciosa, apenas um sujeito que gosta de rir com os amigos, sejam eles virtuais ou não!
Aliás, perniciosas seriam pernas femininas deliciosas e perigosas, pernas que locomovem quadris curvilíneos em suave bambolear, em perfeito compasso com os seios cinzelados por Michelângelo Buonarroti. Ombros cobertos por revolta cachoeira negra, que acompanha a suavidade dos movimentos do pescoço em minha direção. Os olhos, de uma noite profunda, sob sobrancelhas espessas de ancestrais mouros, me levam a sonhos impossíveis e irreais!
Acordo com a plantonista: "Tá na hora do remedinho do Paulinhooo!", eu quase respondo: "Vai tomar no cuuu-uuu!". Mas não posso, é uma questão de postura diplomática!
Boa noite a todos, sonhem com um final de semana maravilhoso, nos vemos na missa das 07:30h, tá bom?
sábado, 21 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
OS TICINCO
Ainda não fiz um texto sobre a Dida, irmã de meu avô materno! A Dida como protagonista que foi de toda a minha formação, com seu afeto e proteção, junto à sabedoria e delicadeza do pai para orientar. Nos textos que já escrevi ela sempre tem estado presente, mas como uma lufada de ar num dia de verão e não como o próprio verão que foi.
Se chamava Emerita e apesar de sua solteirice juramentada nasceu para ser mãe e abraçou a maternidade com a competência de alguém orientado por fios divinos, em escolhas espirituais que não se explica mas, por vezes, se compreende em pessoas especiais. Nasceu em 1901 e era a filha mais moça de sua família, raspa-de-tacho como se dizia então, e tratava seus irmãos com a deferência destinada a senhores mais velhos. Ajudou a criar minha mãe e seus irmãos. E eram tão apegados que - contava sempre - quando a mãe casou com o pai, assustada com a perspectiva de um sexo misterioso, queria que a Dida a acompanhasse na lua-de-mel. E quando nasceu minha irmã, um ano depois, foi ela que a batizou, de Emerita transformando-se em Dinda e de Dinda em Dida, quase instantaneamente. E foi como Dida, na família e na cidade inteira, que se perpetuou.
Quando a mãe começou a sentir que a vida se esvaía, confiou seus quatro filhos a ela. A mãe partiu e a Dida, com o coração em pedaços, abafou seus soluços para nos compensar. Mudou-se com sua malinha de lona e a máquina de costura e passou a morar conosco, dormindo comigo, que era muito pequena e muito assustada. A demonstração do carinho entre todos nós sempre foi muito fácil e isso devemos àqueles braços que nos abrigavam o tempo todo, provando que o afeto é a mola-propulsora das boas intenções. Cuidou de nossas roupas, nosso alimento, nossas amizades. Brincava, quando fazíamos alguma peraltice: "Deus não dá filhos e o diabo dá sobrinhos!" Quando começamos a partir para nossas andanças, fazia potes de roscas que chamava de "mariquitas" e enchia as despensas de nossas casas.
Usou o mesmo corte de cabelo pela vida afora, fazia suas roupas - e as nossas também - com a simplicidade que a época difícil exigia, mas tinha uma vaidade inviolável: nunca falou sua idade! A cada aniversário respondia invariavelmente que tinha "ticinco". E os ticinco repetiram-se vida afora, sem que pudéssemos ver seus documentos e comprovar o tamanho dos ticinco. Tinha poucos cabelos brancos e a idade era indecifrável. Só ficamos sabendo quando aposentou-se compulsoriamente, aos 70 anos, e desfez-se o mistério.
Atravessou uma vida longa, 90 anos, perdidos os últimos para o Alzheimer. Mas na maior parte de sua caminhada não viveu para si própria em nenhum momento. Viveu para os filhos que lhe foram surgindo pelas perdas e pelas necessidades e foi uma das melhores mães que conheci. Quando alguém na família, primos, tios, irmãos, faz aniversário, muitas vezes o ticinco é lembrado, trazendo de volta a Dida, como que por magia, num comovente vôo espiritual em nosso mais profundo céu interior.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Ninguém me avisou
que havia uma curva
no meio dos meus planos
Ninguém me avisou
do emaranhado dessas curvas
e quanto custaria o sobressalto
Hoje
ficaram pedaços amassados por botas
a ornamentar palavras biográficas
Hoje
restou um grão ressuscitado
que afunda em curvas
como se fossem rendas do espírito
a filtrar certeza e imprevisão
quietude e alvoroço
sombra e corpo que a projeta
que havia uma curva
no meio dos meus planos
Ninguém me avisou
do emaranhado dessas curvas
e quanto custaria o sobressalto
Hoje
ficaram pedaços amassados por botas
a ornamentar palavras biográficas
Hoje
restou um grão ressuscitado
que afunda em curvas
como se fossem rendas do espírito
a filtrar certeza e imprevisão
quietude e alvoroço
sombra e corpo que a projeta
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
domingo, 15 de setembro de 2013
Hoje, dia 15 de setembro, meu dindo e tio David, pai do Eduardo, faz 80 anos. Ele é nossa pérola de hoje! Dedico-lhe, com amor, esse pedaço da minha memória.
O TREM
Remexer em nossa história mais remota é uma aventura de valor tão inestimável quando foi vivê-la. É conseguir montar um quebra-cabeças que às vezes perdeu peças importantes, emaranhadas em dias por vezes negros que nos obrigamos a atravessar. É recuperar perdas, trazê-las de volta ao nosso redor, acarinhá-las, sentir seus cheiros, escutar ruídos, ser tudo de novo e compreender, finalmente, com os olhos da maturidade, aquele desenho grandioso que brota de nossas recordações.
Das aventuras em Arroio Teixeira, deixei uma para contar hoje, dia em que meu dindo e tio David Menezes faz 80 anos de história e estou aqui, perto dele, para reviver seus traços e sua alegria.
Em alguns anos de nossas férias, viajou conosco para a praia o filho mais velho do tio, o Davizinho, quatro anos mais moço que eu. Foram, como sempre, muitas aventuras mas, final de fevereiro, era hora de voltar. Saíamos cedo, almoçávamos em Porto Alegre, depois mais um ônibus até Cachoeira, para chegada à tardinha. Pois naquele dia o ônibus se acidentou. O motorista perdeu a direção e despencou num barranco, a meu ver interminável. Sem ferimentos a não ser o pânico daquele momento, atolamos em um lugar de difícil acesso, invisível da estrada. Era uma época sem telefones e precisou quase que o resto do dia para que o motorista conseguisse mandar o aviso pra empresa em busca de outro ônibus. Ficamos o dia lá e os lanches que levávamos foram se terminando. Já era noite quando chegamos em Porto Alegre e estava perdido o ônibus de conexão. O dinheiro, que seria para o almoço do familião, precisou ser usado nas passagens de trem, única chance de chegarmos a Cachoeira, numa viagem até a madrugada. Foi-se o dinheiro, foi-se o almoço, a janta, os lanches e sobrou uma turma de adolescentes e crianças esfomeadas. Davizinho e eu devíamos ter 5 e 9 anos e, antes de embarcarmos, fomos alertados que não tinha como comprar comida. Salvou-nos um sacolão de abacaxi que havia vindo para a vó e, a cada vez que passava um vendedor de lanches pelo trem e olhávamos mudos de fome, era dividido um abacaxi em rodelas.
Como o tio foi avisado eu não lembro, mas quando chegamos na estação no meio da madrugada, lá estava sua alegria nos esperando e o alívio, ah, o alívio estampado no rosto. Esperou-nos com uma mesa tão recheada de pães, frios, patês, geléias, na qual nos atiramos como náufragos numa ilha cheia de luz. Lá estava meu dindo e tio David, na ponta da mesa e, naquele momento, ele era o pai de todos, a nos alimentar e acarinhar, com seus enormes braços protetores.
Hoje estou em Floripa e desde ontem estamos festejando seus 80 anos. Hoje já partiu o pai para sua viagem ao infinito, já partiu a Dida, já partiu o mano Laurinho e as crianças tem novas histórias pra viver. Hoje, ao nos reunirmos nessa enorme mesa-redonda familiar, sinto que esse trem demorou uma vida pra chegar e sinto, ao olhar seu rosto na ponta da mesa, quão enorme era a fome que eu sentia de seu carinho e de sua risada espalhada no ar.
sábado, 14 de setembro de 2013
Sabe-se lá
aonde foram as rimas
Sabe-se lá onde se esconderam
as primas evoluções de nossa coragem
Mas um amigo sabe...
E um amigo sabe
pelas manifestações de sua imagem
que nos aproximam de um sentido mais claro
porque fomos também o que ele é
A mesma ponta partilhada
o mesmo mergulho em risos e lágrimas
a mesma ressaca
de mudar o mundo numa noite
e na manhã seguinte
acordar num mundo de ontem
Se um amigo tem um teto
construído de uma luxuriante
embriaguez de coragem
nos obrigamos também a encontrá-la
Porque onde mora a coragem
moramos todos nós
que nascemos da mesma mãe
do mesmo pai
naquele lugar do passado
onde morávamos todos
nos faltassem pernas nos faltassem braços
germinados de uma enorme e inesquecível
liberdade interior
aonde foram as rimas
Sabe-se lá onde se esconderam
as primas evoluções de nossa coragem
Mas um amigo sabe...
E um amigo sabe
pelas manifestações de sua imagem
que nos aproximam de um sentido mais claro
porque fomos também o que ele é
A mesma ponta partilhada
o mesmo mergulho em risos e lágrimas
a mesma ressaca
de mudar o mundo numa noite
e na manhã seguinte
acordar num mundo de ontem
Se um amigo tem um teto
construído de uma luxuriante
embriaguez de coragem
nos obrigamos também a encontrá-la
Porque onde mora a coragem
moramos todos nós
que nascemos da mesma mãe
do mesmo pai
naquele lugar do passado
onde morávamos todos
nos faltassem pernas nos faltassem braços
germinados de uma enorme e inesquecível
liberdade interior
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
O OVO DA SERPENTE
Quando eu tinha uns 8 anos, entre brincadeiras com os gatos, bonecas de vestir (de papel, quem lembra?) e carrinhos do mano, ouço uma conversa de que a Casa da Criança de Cachoeira estava pedindo donativos. Fundada em 44, era um orfanato mantido pelas Irmãs do Sagrado Coração de Jesus, com professores cedidos pelo município. Pois ao ouvir os planos de mandar roupas e brinquedos nossos pras crianças, fiquei pensando que ninguém havia lembrado de mandar balas, meu mais maravilhoso sonho de consumo, e resolvi ajudar. Meu único bem era a coleção de revistas em quadrinhos (Luluzinha, Mandrake, Capitão Marvel...) Resolvi vendê-las para comprar as ditas balas. Minha casa tinha um degrauzinho de uns cinco centímetros, no alicerce, que se prestava para a base onde as revistas ficariam em pé. Um prego em cada ponta da parede e um cordão de fora a fora completavam a banca. Acho que devia estar em férias, pois passei o dia ali, e vi minhas preciosas revistas irem embora impiedosamente, ao menor afago, ao mais ímpio olhar de sedução, sem um esvoaçar de folhas sequer... Penso que deviam estar custando bem menos do que valiam, pois o movimento foi intenso e logo logo aquela banca de uns dez metros, com revistas de início amontoadas, foi ficando vazia. O ponto alto foi quando o prefeito da época, Moacyr da Cunha Rösing, veio escolher suas revistas, com a importância de um freguês em uma joalheria.
Computados os ganhos, deu pra comprar um sacão de balas, acho que de cinco, dez quilos, não lembro bem. E ele era tão grande, tão tentador para meus olhos infantis, que não resisti a furar uma pontinha e pegar algumas balas. Pensava, insidiosamente, que merecia aquelas balas, pois havia cedido minhas preciosas revistas. Era o espírito da propina que se insinuava em minhas ações diárias, sem que eu entendesse, no momento em que tive o poder sobre aquelas balas e aquelas crianças. Claro que os adultos perceberam o furo e a lição de moral correu solta. O pai, com sua sabedoria, falou-me em integridade e desprendimento, sem nunca deixar que minha vergonha suplantasse o fato de que a intenção era boa. No outro dia fomos levar o presente até a Casa da Criança e deliciei-me ao vê-los me rodear, enquanto distribuía as balas. Por um instante mágico fui um pouco mãe daquelas mãos estendidas. Tudo o mais perdeu a importância a não ser os apaziguados sorrisos porque, ao me fazer devolver as balas, falando no verdadeiro sentido da generosidade, o pai estava destruindo para sempre, em seu ninho mais obscuro, o ovo da serpente.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
terça-feira, 10 de setembro de 2013
O CARDÁPIO
Meu irmão Lauro (Laurinho pra todos nós) partiu aos 60 anos. Era meu irmão de idade mais próxima, menos de 5 anos de diferença, mas o suficiente para que tomasse ares de deus protetor daquela curiosa e insaciável irmã menor. Na praia, brincávamos com seus carrinhos, ganhos no natal, em vias expressas construídas debaixo da casa, que se erguia sobre pedras altas para que não apodrecesse com a umidade. Foi ele que protegeu minha virgindade nas festas de Cachoeira, sempre de olho nas danças e namoros, até que apaixonou-se e deixou-me em paz para seguir meu rumo.
Quando garoto foi ser escoteiro. Eu achava aquilo o máximo. Acampar, dormir em barracas, construir mesas e bancos com toras e cipós, como pioneiros, era um sonho inimaginável. Eu babava com as histórias e pra que eu parasse de encher seu saco, resolveu reproduzir o mundo escotista no quintal de nossa casa. Cortou galhos, amarrou-os em tripés com cordas, pregou tábuas em cima e estavam improvisados os bancos. Eu ajudei em cada etapa, como se estivesse construindo a casa dos meus sonhos. Depois construiu o fogão, enjambrado em pedras, arames e latas, que serviriam de panela. O problema é que só sabia fazer arroz, então catamos na cozinha alguns tomates e estava feito o nosso almoço. Fiel a nós dois estava meu gatinho da época, Veludo eu acho, assistindo a preparação. Claro que o arroz empapou! Mas Laurinho, Veludo e eu comemos o melhor arroz com tomate de nossas vidas... À noite, diante de panos amarrados em árvores, para que dormíssemos embaixo, refuguei o acampamento e voltamos todos, inclusive o Veludo, pra nossas caminhas macias. Muitas vezes repetimos o cardápio e o Laurinho jamais aprendeu a fazer arroz, mas alimentou-me o gosto pela terra e pelas coisas simples. E quando sento no jardim, em bancos que construí com minhas próprias mãos, sinto o gosto mágico de arroz com tomate.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Esse bando de palavras
que escolhi para meus pares
às vezes brinca de roda
às vezes afunda em mares
Esse bando de palavras
que conquisto sem alarde
às vezes porta bandeiras
às vezes dorme em esteiras
Que ao juntar tais criaturas
em espaço tão restrito
não se abale as estruturas
daquilo que eu acredito
e só me leve às alturas
nas asas do que foi dito
que escolhi para meus pares
às vezes brinca de roda
às vezes afunda em mares
Esse bando de palavras
que conquisto sem alarde
às vezes porta bandeiras
às vezes dorme em esteiras
Que ao juntar tais criaturas
em espaço tão restrito
não se abale as estruturas
daquilo que eu acredito
e só me leve às alturas
nas asas do que foi dito
domingo, 8 de setembro de 2013
Hoje o Motta nos brinda com uma bela declaração de amor. Junto à riqueza interior da Val e à leveza lírica do Eduardo, teremos um domingo perfeito. São pérolas que nos lembram, talvez, que nada é o que parece ser...
De Val Saab
é quando o mundo para.
de vez em quando, é isto que acontece
ninguém sabe
ninguém percebe
ninguém vê.
só você. só você sabe.
só você sente.
sente que o tempo para
sente que o tempo é seu
sente que o mundo
move dentro de você
em outro tempo,
outra história, outro ritmo, outra razão.
não diga que a história não vale a pena.
se vale se
entregar e ter
por pouco que seja
o mundo em tuas mãos.
De Eduardo Magrão Menezes
ALADA PAIXÃO
Vem... linda borboleta,
Desenhando em tua vinda,
No teu alegre vôo,
Coloridos corações
Em piruetas sutis,
Escrevendo ao léu
Poemas de amor!
Vem beijar teu poeta
Disfarçado em flor
Que, por te amar,
Virou amor-perfeito
No jardim do amor!
Vem mulher alada,
Borboleta da paixão,
Vem ser fada safada
No jardim do meu colchão!
Vem ser demência,
Na loucura da paixão,
De um poeta enlouquecido,
Que dá asas ao amor...
Pra voar seu coração!
De Paulo Motta
Despertei distraído, ainda com a poeira dos sonhos na pele e a nítida sensação do calor do teu corpo no algodão do lençol. Continuo de olhos fechados, guardando as lembranças que vieram no sonho; teu ressonar suave, teus ruídos noturnos voltando pra cama e procurando se aninhar embaixo das cobertas no frio de julho. Inesquecíveis manhãs de domingo, em que te acomodava de um jeito especial no meu colo, pedindo um afago, um carinho delicado, tão frequente em nossos braços e abraços. Nunca precisaste falar, somente me fitar com teus enormes e redondos olhos negros. Às vezes eu acordava com o roçar dos teus pelos ou do teu bigode em minha nuca! Meu coração sente a tua falta. Lembro quando Maria Cristina e eu te buscamos na casa de um amigo, que havia te resgatado de um bueiro, uma gatinha preta com manchas amarelas, uma gracinha, a Pôka! Tão logo me recupere vou vê-la, minha gata Pôka danada amada pulguenta feroz! Maria Cristina cuida dela como se fosse uma princesa! De tarde leva no balê e às quintas, no inglês. Bela manhã, ensolarada e fria, bem como eu gosto, hoje, queridos amiguinhos e amiguinhas. Domingo recebi a visita do meu amigo Claudio Mariano, o Tinga, e sua esposa Adelina, que me relembraram engraçadas histórias dos tempo da rotativa, lá na Zero Hora. Naquela época a gente entrava no jornal e não sabia quando sairia. Sério, rapaiz! Em 82, quando veio o Papa Johannus Paulus II, ficamos três dias lá dentro. Claro, fazendo churrasco e tomando cachaça. E trabalhando. E o jornal ia pra rua, creiam-me, ó homens de pouca fé. Já de manhã cedo levei uma ralhada da enfermeira, só porque escrevi com pincel atômico vermelho, no meu babeiro - eu tenho um babeiro, senão é um desastre - "Sou da Mamãe!. Ela falou que se alguém chegasse pensaria que aqui é um manicômio e que eu não tinha maturidade, pareço uma criança grande, preciso mudar essa postura infantil e aíaspessoasfalamquetunaoipretsaatenaçastobbrrr. Claro, claro, entendo, sei sim! Tá bom. Eu desenvolvi um dispositivo que, se o assunto não me agrada, eu ligo esse negócio e saio do ar, sacou? Fico olhando, compenetrado, para a criatura que vocifera ou que me amola com papo chato, como se estivesse profundamente interessado no que o incauto fala. Depois, é só sacudir a cabeça e dizer: "Claro, é isso, com certeza - o "com certeza" não pode faltar - vou modificar, etc.", e nunca diga nada que possa fazer a pessoa voltar ao ponto de partida, o que seria uma hecatombe. Nesses momentos o silêncio é precioso. Meus amigos e amigas, meus parceiros diários, obrigado pelo carinho de vocês e tenham um bom almoço. Um alá minuta mal-passado, ou amina luta bem-passado. Beijinhos e abracinhos.
De Val Saab
é quando o mundo para.
de vez em quando, é isto que acontece
ninguém sabe
ninguém percebe
ninguém vê.
só você. só você sabe.
só você sente.
sente que o tempo para
sente que o tempo é seu
sente que o mundo
move dentro de você
em outro tempo,
outra história, outro ritmo, outra razão.
não diga que a história não vale a pena.
se vale se
entregar e ter
por pouco que seja
o mundo em tuas mãos.
De Eduardo Magrão Menezes
Vem... linda borboleta,
Desenhando em tua vinda,
No teu alegre vôo,
Coloridos corações
Em piruetas sutis,
Escrevendo ao léu
Poemas de amor!
Vem beijar teu poeta
Disfarçado em flor
Que, por te amar,
Virou amor-perfeito
No jardim do amor!
Vem mulher alada,
Borboleta da paixão,
Vem ser fada safada
No jardim do meu colchão!
Vem ser demência,
Na loucura da paixão,
De um poeta enlouquecido,
Que dá asas ao amor...
Pra voar seu coração!
De Paulo Motta
Despertei distraído, ainda com a poeira dos sonhos na pele e a nítida sensação do calor do teu corpo no algodão do lençol. Continuo de olhos fechados, guardando as lembranças que vieram no sonho; teu ressonar suave, teus ruídos noturnos voltando pra cama e procurando se aninhar embaixo das cobertas no frio de julho. Inesquecíveis manhãs de domingo, em que te acomodava de um jeito especial no meu colo, pedindo um afago, um carinho delicado, tão frequente em nossos braços e abraços. Nunca precisaste falar, somente me fitar com teus enormes e redondos olhos negros. Às vezes eu acordava com o roçar dos teus pelos ou do teu bigode em minha nuca! Meu coração sente a tua falta. Lembro quando Maria Cristina e eu te buscamos na casa de um amigo, que havia te resgatado de um bueiro, uma gatinha preta com manchas amarelas, uma gracinha, a Pôka! Tão logo me recupere vou vê-la, minha gata Pôka danada amada pulguenta feroz! Maria Cristina cuida dela como se fosse uma princesa! De tarde leva no balê e às quintas, no inglês. Bela manhã, ensolarada e fria, bem como eu gosto, hoje, queridos amiguinhos e amiguinhas. Domingo recebi a visita do meu amigo Claudio Mariano, o Tinga, e sua esposa Adelina, que me relembraram engraçadas histórias dos tempo da rotativa, lá na Zero Hora. Naquela época a gente entrava no jornal e não sabia quando sairia. Sério, rapaiz! Em 82, quando veio o Papa Johannus Paulus II, ficamos três dias lá dentro. Claro, fazendo churrasco e tomando cachaça. E trabalhando. E o jornal ia pra rua, creiam-me, ó homens de pouca fé. Já de manhã cedo levei uma ralhada da enfermeira, só porque escrevi com pincel atômico vermelho, no meu babeiro - eu tenho um babeiro, senão é um desastre - "Sou da Mamãe!. Ela falou que se alguém chegasse pensaria que aqui é um manicômio e que eu não tinha maturidade, pareço uma criança grande, preciso mudar essa postura infantil e aíaspessoasfalamquetunaoipretsaatenaçastobbrrr. Claro, claro, entendo, sei sim! Tá bom. Eu desenvolvi um dispositivo que, se o assunto não me agrada, eu ligo esse negócio e saio do ar, sacou? Fico olhando, compenetrado, para a criatura que vocifera ou que me amola com papo chato, como se estivesse profundamente interessado no que o incauto fala. Depois, é só sacudir a cabeça e dizer: "Claro, é isso, com certeza - o "com certeza" não pode faltar - vou modificar, etc.", e nunca diga nada que possa fazer a pessoa voltar ao ponto de partida, o que seria uma hecatombe. Nesses momentos o silêncio é precioso. Meus amigos e amigas, meus parceiros diários, obrigado pelo carinho de vocês e tenham um bom almoço. Um alá minuta mal-passado, ou amina luta bem-passado. Beijinhos e abracinhos.
sábado, 7 de setembro de 2013
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Gatinho e cachorro
na casa que fiz
alcançam socorro
se acordo infeliz
Que adianta socorro quando acordo surda
A flor que amanhece
brilhando no céu
no amor que padece
é toque de véu
Que faço das cores se amanheço gris
Pudesse quem sabe
salvar o soneto
se tal como um sabre
É a dor em tentativa absurda
a dor não cortasse
as bases do teto
que ao frio me abrigasse
Que rasga o soneto como eu sempre quis
na casa que fiz
alcançam socorro
se acordo infeliz
Que adianta socorro quando acordo surda
A flor que amanhece
brilhando no céu
no amor que padece
é toque de véu
Que faço das cores se amanheço gris
Pudesse quem sabe
salvar o soneto
se tal como um sabre
É a dor em tentativa absurda
a dor não cortasse
as bases do teto
que ao frio me abrigasse
Que rasga o soneto como eu sempre quis
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
A REPARAÇÃO
Se quando chegou ela fez história, por carregar a lagartixa em seu bolso, a camisa Volta ao Mundo também teve seu lado negro em minha história. Era um dia festivo, em comemoração aos meus 10 anos, ritual de passagem da infância à pré-adolescência e sua rebeldia incipiente. Amigos chegaram antes das visitas mais formais. Não lembro dos participantes, mas o certo é que formei um bando e seduzi-os a andar por cima dos muros, de nossa casa até a quadra seguinte, analisando pátios, bichos, espionando histórias. Estávamos todos lindos, arrumadinhos pra uma festa e, logo logo, nossas ferozes pernas se equilibravam sobre trapézios improvisados a desbravar o mundo. Numa das casas investigadas morava uma velhinha, a matriarca, já com Alzheimer (caduca, dizíamos então) e apavorou-se quando passamos a primeira vez. Estava de preto, lembro, e quando voltamos, nos esperava com um enorme balde cheio de água de esgoto, graxeira, ou qualquer dessas coisas bem fedorentas. Atirou, com uma pontaria inesperada para sua condição, mirando a chefe do bando, e acertou-me em cheio, respingando em todo o pessoal que vinha entusiasticamente atrás. Alguém pode imaginar o pavor que foi entrar em casa daquele jeito? O cheiro antecipou-se ao silêncio em que vínhamos e uma guarnição de adultos indignados já nos esperava na porta da cozinha. Antes do "não foi isso que vocês estão pensando!", tocam a campainha da frente e entra minha madrinha, querida Lilia Ferreira, com a sonhada camisa Volta ao Mundo. Deu de cara comigo e ao lhe confessar o que havia acontecido, marcou-me com um castigo pior do que qualquer palavra ríspida das muitas que escutei naquele dia: "pensei que já eras mocinha, por isso trouxe a Volta ao Mundo, mas já vi que me enganei, então vou levá-la de volta!"
Depois dos devidos banhos tomados, o aniversário continuou, mas estava estragado pela vergonha. No outro dia, em conversa com o pai, foi-me aconselhado falar com a velhinha, pois eu a havia assustado e ofereceu-se para ir junto, amoroso como era. Bati na porta, expliquei a situação, e me foi permitido pedir desculpas, mesmo que ela não lembrasse mais do acontecido. Mas eu lembrava e, reparando o erro, desfez-se um pouco a nódoa do mau-feito. Uma longa semana depois, pude receber minha camisa Volta ao Mundo e dei, talvez, o primeiro passo para a maturidade, num tempo em que a formação de quadrilha era punida com rigor e, mais que tudo, de uma forma reparadora.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Eis que enfim setembro rompe em círculos
numa escandalosa cascata de cores
No ar uma estrangeira sensação do bem
burlando esquisitices do velho coração
O céu com seus trigais
amanhece em plataformas douradas
ao alcance das mãos
Suspiros são bem-vindos
alimentados em orquestra de grilos
Todos os açoites ficaram pra trás
A elegia das sombras quedou-se
em labirintos obscuros
e o orgulho da aurora restaurada
é visível no sol deslizante
Oh primavera das consolações
quem não se lembra de ti
quem não clama por ti para sair de grutas
Já agonizei
antes dos teus trigais
Afoguei suplício em taças
prometidas aos deuses
por absurdas e vis revelações
Oh primavera de minhas repetidas esperanças
sela-me os lábios de antigos venenos
salva-me o corpo de honras perdidas
Deixa-me nascer como rainha
e que as fendas do peito
se empapem gostosas com os raios de sol
numa escandalosa cascata de cores
No ar uma estrangeira sensação do bem
burlando esquisitices do velho coração
O céu com seus trigais
amanhece em plataformas douradas
ao alcance das mãos
Suspiros são bem-vindos
alimentados em orquestra de grilos
Todos os açoites ficaram pra trás
A elegia das sombras quedou-se
em labirintos obscuros
e o orgulho da aurora restaurada
é visível no sol deslizante
Oh primavera das consolações
quem não se lembra de ti
quem não clama por ti para sair de grutas
Já agonizei
antes dos teus trigais
Afoguei suplício em taças
prometidas aos deuses
por absurdas e vis revelações
Oh primavera de minhas repetidas esperanças
sela-me os lábios de antigos venenos
salva-me o corpo de honras perdidas
Deixa-me nascer como rainha
e que as fendas do peito
se empapem gostosas com os raios de sol
terça-feira, 3 de setembro de 2013
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
A JANELA
Quando fiz 10 anos, ganhei uma camisa Volta ao Mundo. Quem testemunhou os anos sessenta, com sua revolução comportamental, artística e política, sabe que a moda, como reflexo, também acompanhava essa explosão, que mudou de forma radical os costumes. A minissaia, a moda unissex, os tecidos sintéticos e, claro, a camisa Volta ao Mundo, de uma espécie de nylon, sonho de consumo de qualquer criança e jovem da época. Tinha gola e um bolsinho na frente, quase sempre de cor clarinha, uma graça. A minha era verde água. Naquele ano fomos para a praia e levei-a principalmente para os domingos, porque era "de sair". Velhos shorts e roupas menos delicadas, que agüentassem o tranco daqueles dois meses de aventuras, eram a vestimenta principal. Uma das brincadeiras mais emocionantes era subir as dunas, que naquele tempo eram enormes e se chamavam cômoros, e, de lá, rolar até embaixo, pra depois subir de novo e rolar e subir e rolar, até que o sol se pusesse no horizonte. Numa das subidas, achei a Tixinha. Era uma lagartixa bem branquinha, camuflada para a areia, que terminou com minha brincadeira daquele dia, pois instantaneamente a adotei e levei-a para seu novo lar. Dormia numa caixinha, na cozinha, e adaptou-se logo ao cardápio de insetos que eu lhe dava. De dia, passeava comigo por Arroio Teixeira, no bolsinho da Volta ao Mundo, com as patinhas de cima apoiadas na aba do bolso, como se ele fosse uma janela. Olhava de um lado pra outro e fazíamos sucesso em nossas caminhadas. Era a alemoazinha, filha do seu Lauro, com sua insólita lagartixa de estimação. Quando as férias acabaram, precisava de um lugar de transporte para a Tixinha. Encontrei uma caixa de manteiga (que na época vinha em embalagem de papelão) e junto à família e tralhas restantes, começamos a longa viagem. No meio do percurso, resolvi dar uma espiada na filha. Horror! Pânico total! A Tixinha tinha fugido. Ajoelhei-me no chão do ônibus a procurar, nessas alturas já aos berros, tirando o sossego dos companheiros de viagem. Todo mundo resolveu ajudar - pra se ver livre de minha histeria, claro - e era um tumulto tão grande, que o motorista resolveu dar uma parada no acostamento, até resolver questão tão delicada. Não lembro quem achou, mas de repente foi um griteiro, achei, achei, e a Tixinha voltou pra caixa, podendo a viagem prosseguir em paz. Em Cachoeira, no mesmo esquema entre caixote e passeio, viveu comigo vários meses, até que um dia sumiu, não sei se por obra dos gatos ou das galinhas da casa. Se foi, e me partiu o coração, como a cada bichinho que se ia, mas fez da camisa Volta ao Mundo muito mais que um simples adereço de moda. Transformou-a, a cada vez que eu a vestia, numa janela para o mundo.
domingo, 1 de setembro de 2013
De Paulo Motta
Bom dia só se for pra ti! Parece mentira, mas conheço gente assim! Gente que abre os olhinhos quando desperta e diz: "Putaquiopariu, tô vivo! Que droga, mais um dia pela frente!". Fazer sexo nem pensar, suja todo o lençol e depois tem que tomar banho, é um saco, melhor tentar dormir. Essa espécie quase humana, catalogada pelos insuportólogos - especialistas em seres insuportáveis - como Incomodatus Tirandolex Patientia Mea, costuma estar atrás de guichês ou nas recepções de repartições públicas e, apesar de seu difícil acasalamento, tem procriado e encontramos muitos deles em call-centers e na área da saúde, também. São muito dependentes do cafezinho, que é seu principal complemento alimentar, melhor se servido pela Ideli Salvatti. Ao final do ano migram para o litoral, onde deverá se dar um penoso processo de conjunção carnal - a procriação - se a manguaça não for maior. Se isso acontecer, azar é o teu, pois ele vai passar bêbado as férias inteiras e te contando a mesma piada! O Poti Silveira Campos postou, há pouco, uma notícia de ZH, em que um cara foi à polícia reclamar que comprou cocaína e o traficante entregou-lhe farinha. Parece gozação, não parece? Mas não é gozação, é verdade. Sempre digo que não sou um modelo de decência ou exemplo pra qualquer coisa mas, como diria minha bisavó Etelvina - aquela que morreu da próstata - "A que ponto chegamos!". Hoje, se eu entrar num supermercado encher os bolsos e for flagrado na saída, pelos seguranças, é bem provável que os seguranças sejam indiciados por truculência e aquela ladainha toda que vocês já sabem. Furto não é crime. E droga parece que também não está sendo mais. Em seguida teremos traficantes protestando diante do Palácio Guanabara ou dando palestras sobre uma nova visão mercadológica, não duvidem. E o ministro do Ministério da Inducação e Cultura, o MINC, Carlos Minc, defende a maconha, a cocaína, a cocada preta, a cueca samba-canção cavadona e vai pra rua defender seu ponto de vista. Legal, sem hipocrisias, sou do tempo em que a gente tinha vergonha de comprar Colomy nos botecos pra fechar os boa-noites. Imagina três guris entram no bar e pedem um Colomy - pra quem não sabe é aquele papel pra fazer cigarros - vão fazer o que, hein? Até que alguém achou um Evangelho Novo Testamento da avó de alguém, com as folhinhas finíssimas, foi uma alegria pra garotada! A velhinha morreu sem dar falta do livro sagrado. Mas esses crimes estão tão banalizados que o que deveria ser piada, agora é real! Aliás, será que ainda existe o Colomy? Se existe, deve ter uns cento e poucos anos. Já estamos em véspera de semana farroupilha, acho que foi o Fernando Albrecht que falou, não tenho certeza, de que agora será Chama Afro-Descendente e não mais Chama Crioula! Bom almoço para todos vocês!
De Eduardo Magrão Menezes
PEPITA
Poeta apaixonado
É meu estado normal
Pois vivo garimpando amor,
Nas coisas que Deus criou!
Admirando engenheiras formigas
Bailarinas borboletas,
Amando amores-perfeitos,
Apaixonado por violetas!
Se solto a imaginação...
Sou barco ao léu
Pássaro voando,
Nuvem no céu.
Sou garimpeiro do amor
Na batéia da paixão,
Buscando a linda pepita,
Minha jóia e cara-metade,
Meu amor...
Meu coração!
sábado, 31 de agosto de 2013
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